Por Adriano Tormena, sociólogo e psicanalista
Entre laços frágeis e feridas familiares
Vivemos tempos em que os laços parecem cada vez mais frágeis. As relações familiares e conjugais, longe de serem espaços de refúgio, muitas vezes se tornam fontes de angústia, repetição e desencontro. Mas por que isso acontece? Por que é tão difícil se relacionar hoje — com o outro e consigo mesmo? A psicanálise nos oferece um caminho para escutar esse mal-estar contemporâneo não como falha individual, mas como efeito de estruturas simbólicas e históricas que atravessam o sujeito desde a infância até a vida amorosa adulta.

O amor não começa no casal, mas na infância
Toda relação afetiva carrega algo da estrutura familiar de onde viemos. O modo como fomos amados, escutados ou rejeitados na infância marca a forma como vamos amar e desejar na vida adulta. Freud já nos dizia, em Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), que o sujeito não é senhor de seu desejo — ele é efeito de uma cadeia de significantes que o antecede. Isso quer dizer que muitas escolhas amorosas não são conscientes, mas repetições. Aquele que se sentiu invisível na infância pode buscar, no parceiro, alguém que o reconheça — ou, paradoxalmente, alguém que o ignore da mesma forma. A lógica do sintoma amoroso, como diz Lacan, é: “Ama-se o que se perdeu” — mas também, frequentemente, “o que nos feriu”.
“Não há relação sexual”, afirma Lacan no Seminário 20,
“porque não há complementaridade possível entre dois sujeitos marcados pela linguagem.”
(LACAN, 1972-73, p. 19)
Ou seja, todo casal lida com a impossibilidade de um encaixe pleno. E é justamente essa falta que mobiliza o desejo — e também o sofrimento.
A intimidade sem linguagem
Hoje, as relações conjugais enfrentam o desafio da hiperexposição e da simultânea falta de linguagem emocional. Há muita fala, pouca escuta. Muito toque, pouco encontro. Muitos likes, pouca elaboração.
Eva Illouz, em O amor nos tempos do capitalismo (2011), afirma:
“O amor se tornou uma experiência fragmentada, submetida à lógica de mercado: o valor do outro é instável, e o vínculo é sempre negociável.”
(ILLOUZ, 2011, p. 74)
Isso cria uma cultura do “descartável emocional”, em que os vínculos se dissolvem diante da primeira frustração. E, paradoxalmente, cresce a idealização de um amor absoluto — que deve acolher, curar, suprir. O resultado? Relações cada vez mais intensas e cada vez mais breves.
Família: lugar de afeto ou prisão simbólica?
No consultório, não é raro ouvir queixas familiares que se repetem geração após geração: mães controladoras, pais ausentes, filhos que não conseguem se separar subjetivamente dos pais. A psicanálise não moraliza essas histórias — ela as escuta em sua estrutura simbólica.
Muitos sujeitos permanecem presos à imagem de um “filho bom”, “marido ideal” ou “mulher que cuida de tudo”, sem se dar conta de que vivem para o desejo do outro. Quando tentam sair desse lugar, surgem a culpa, a ansiedade, a sensação de traição. O amor familiar, então, se torna prisão.
“O supereu ordena gozar do ideal. E quanto mais obedecemos, mais sentimos culpa.”
— Lacan, Seminário 7 (A ética da psicanálise, 1959-60)
Assim, o sujeito se angustia porque não consegue romper com um ideal que o aliena. E quando tenta construir algo diferente — por exemplo, um novo vínculo amoroso — carrega consigo a culpa de “falhar” com a família.

O manejo clínico: cortar sem destruir, escutar sem consertar
A clínica psicanalítica não oferece soluções mágicas para conflitos conjugais ou familiares. Mas ela oferece algo raro: um espaço onde o sujeito pode se escutar fora da repetição. O analista não diz o que fazer — ele pergunta o que está se repetindo ali.
O manejo clínico, nesse sentido, se dá em três tempos:
- Nomear o sintoma: perceber o que se repete nas relações (sempre me envolvo com pessoas indisponíveis? Sempre obedeço? Sempre fujo do afeto?).
- Separar-se do lugar imposto pelo Outro: deixar de viver para agradar pai, mãe, parceiro, filhos — e encontrar um desejo que não seja alienado.
- Assumir a responsabilidade pelo próprio desejo: não como culpa, mas como potência de se reinventar.
Isso exige tempo, escuta e atravessamento. Muitas vezes, antes de amar, é preciso desfazer a imagem do amor que nos ensinaram. Antes de cuidar do outro, é preciso renunciar à função de salvador.
Implicação: amar é suportar a falta
Relacionar-se hoje é difícil porque exige o que poucos aprenderam: frustrar e ser frustrado sem romper, falar e ouvir sem certeza, habitar a diferença sem querer anulá-la.
Amar, no fim, é um trabalho — não no sentido burocrático, mas no sentido de abrir-se ao que não se controla. É por isso que a análise ajuda: ela devolve ao sujeito a chance de amar sem se apagar, de escutar o outro sem se esquecer. E, talvez, ao fim de um longo processo, o sujeito descubra que o amor começa quando a fantasia de completude cede lugar à possibilidade de construir algo real — ainda que imperfeito.
Referências bibliográficas (ABNT)
- FREUD, Sigmund. Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905). In: ______. Obras completas, v. 8. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
- ILLOUZ, Eva. O amor nos tempos do capitalismo: ensaios sobre a vida emocional contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
- KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
- LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

