Os Amantes II, de René Magritte

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  • Última modificação do post:15/04/2025

A psicanálise, de Freud a Lacan, não apenas foi influenciada pelo universo artístico, como também teve um papel fundamental na forma como ele se expressa. O Surrealismo, por exemplo, foi um movimento profundamente marcado por esses encontros. Para Freud, a arte revela aspectos do inconsciente que a psicanálise tenta entender: ela tem o poder de expressar aquilo que a linguagem não alcança, de nomear o inominável, de dar sentido ao que carece e de tirar significado ao que tem. Para Lacan, a arte serve como um testemunho do inconsciente, onde ele “vaza” e se manifesta em formas que nos surpreendem.

Os Amantes II, de René Magritte

“Os Amantes II” (Les Amants II) é uma pintura icônica do artista surrealista belga René Magritte, criada em 1928. É uma das quatro pinturas que ele fez naquele ano com o tema de amantes com os rostos cobertos por um pano. A obra original é um óleo sobre tela com dimensões de 54 cm x 73,4 cm e atualmente reside no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova York, como parte da coleção de Richard S. Zeisler.

A obra “Os Amantes II” de René Magritte me atravessa de uma forma única. Ela evoca sentimentos e provoca reflexões sobre a experiência de estar vivo. Não apenas sobre o fato de fazer parte do mundo, mas sobre o ato de estar presente — de ser agente de si mesmo, de ser um ser desejante, mesmo sem conhecer plenamente o próprio desejo. E, como no quadro, é como se estivéssemos tocando o desejo de forma difusa, apenas arranhando sua superfície, como um beijo que se esconde atrás do capuz.

O capuz, aqui, pode ser visto como uma metáfora do inconsciente. Ele impede o conhecimento profundo de nossos desejos; sabemos que queremos, mas não conseguimos discernir totalmente o que. O abraço que não está completamente visível na pintura, mas que se sente em cada gesto, é como a vida que não se revela completamente a nós. O beijo suave, que o capuz impede de sentir em sua totalidade — o gosto, o tempo roubado, a textura da pele, a cor dos lábios — tudo isso é desejo.

E assim também é a vida cotidiana. Nossas relações, nossos encontros, nossos próprios anseios, são como esse beijo velado. Buscamos o outro, buscamos a conexão, mas a totalidade do que sentimos e desejamos permanece, muitas vezes, encoberta. Somos seres que, como na pintura de Magritte, se encontram, se tocam, mas não podem se ver completamente. Estamos todos, de alguma forma, com o capuz do inconsciente, arranhando o desejo sem jamais tocá-lo por inteiro.

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