Um estudo recente aponta que a geração Z está fazendo menos sexo. Mas o que poderia estar por trás desse comportamento que, em outras gerações, era visto quase como um “rito de passagem”?

O encontro com o Outro está cada vez mais burocratizado. Protocolos afetivos circulam nas redes sociais como performances já consagradas por “tal” ou “tal” influenciador. O lugar do desconhecido, da incerteza e do risco é sufocado pela angústia do não-saber — angústia que o sujeito tenta dissolver para evitar custos emocionais.
Mas além da geração Z, os millenials, também sentem os efeitos de uma sociedade do desempenho, o outro vira espelho e o diferente é apagado, só há consumo narcísico. Em Agonia do Eros (2012), Byung-Chul Han diz; O sujeito do desempenho não conhece o outro. Ele só conhece a si mesmo. A alteridade é sacrificada em favor da igualdade. O eros, que pressupõe a diferença, cede lugar a um narcisismo coletivo.”
Corpos já extenuados pelo trabalho e pela rotina encontram, naquilo que era da ordem do prazer, mais uma dificuldade a superar. Como escreveu Marcuse: “O desempenho sexual, sob o princípio de desempenho, torna-se ele mesmo uma mercadoria: algo a ser exibido, valorizado, avaliado e consumido” (MARCUSE, 1964, p. 203). Não é que estejamos cansados do sexo, o que cansa, é o consumo sem sentido, rápido e fugaz, que promete “preenchimento”, mas escancara o nosso vazio, nossa incompletude e insignificância.
Seguindo a ordem, toda a estrutura neoliberal seguiu capturando todos os elementos psíquicos dos sujeitos…
Colonizando até o desejo. Como lembra Žižek, “o capitalismo não apenas tolera a multiplicidade de desejos, mas os explora, multiplicando-os até o infinito, para manter o sujeito permanentemente insatisfeito” (ŽIŽEK, 1999, p. 50). O que antes podia ser vivido como risco ou encontro, agora é administrado como mercadoria, sempre prometendo um gozo maior, mas sempre adiando sua realização, e explorando a falta que constitui o humano, o mercado engendra a roda da insatisfação plena.
O sujeito fica preso em uma vida cheia de coisas, que promovem mais a sensação de vazio, o que demanda tempo, profundidade e conexão, e visto como risco que deve ser evitado pelos custos emocionais. A roda da satisfação rápida não comporta o tempo da conexão.
Para fomentar isso e manter o sujeito na roda da satisfação rápida…
A pornografia online, a hiperexposição nas redes, os aplicativos de encontro — tudo parece reduzir o sexo a uma moeda de troca em um jogo de consumo e performance. Para Illouz, “o amor romântico se transformou em um campo de escolha racional, onde os afetos são mediados por cálculos de investimento e retorno” (ILLOUZ, 2011, p. 94). Quando o outro vira cálculo, o desejo cede lugar à frustração.
O resultado? Uma erotização cada vez mais difusa, mas também cada vez mais desencarnada. Deleuze e Guattari já antecipavam essa lógica: “O capitalismo liberta os fluxos de desejo, mas apenas para recapturá-los em seus próprios axiomas” (DELEUZE; GUATTARI, 1972, p. 245). O que resta é um circuito fechado de gozo, no qual o sujeito corre como rato em roda, sempre exausto, sempre desejando, mas nunca chegando, encontrando no desprazer o ápice do prazer. O outro se torna adereço de uma auto satisfação fantasiosa, o que importa são os enredos que crio
E, nesse vazio, a fantasia cumpre sua função: preservar o sujeito do encontro real, oferecer um gozo administrável, e sustentar a roda girando. Mas até quando?

Referências
- DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. L’anti-Œdipe: Capitalisme et schizophrénie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1972.
- HAN, Byung-Chul. A agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2012.
- ILLOUZ, Eva. Why love hurts: A sociological explanation. Cambridge: Polity Press, 2011.
- MARCUSE, Herbert. One-dimensional man. Boston: Beacon Press, 1964.
- ŽIŽEK, Slavoj. The ticklish subject: The absent centre of political ontology. London: Verso, 1999.

