Depressão: quando o mundo perde a cor.

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  • Última modificação do post:28/07/2025
Por Adriano Tormena, sociólogo e psicanalista
Depressão: quando o mundo perde a cor

“Tudo está igual, mas nada muda”. Essa frase representa muitos indivíduos que passam ou estão em estados depressivos, as coisas congelam no tempo, o mundo fica opaco, sem cor, o marasmo toma conta da vida. A depressão, longe de ser apenas uma tristeza intensa, configura uma perda profunda de lugar no desejo e no laço social.

“A depressão, assim como o luto, é uma forma de subjetivação do tempo. Mas enquanto o luto é um tempo que passa, a depressão é um tempo que não passa: o sujeito não consegue mais investir no futuro.”
Kehl, 2009, p. 185

A depressão como perda de linguagem

A psicanálise não trata a depressão como um transtorno químico, mas como um acontecimento do sujeito. Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), já apontava que, na melancolia (forma clínica análoga à depressão), há uma identificação do eu com o objeto perdido. O sujeito não apenas perde algo ou alguém — ele se perde com isso. O objeto se torna um pedaço do eu: “a sombra do objeto caiu sobre o eu”, escreve Freud. Essa perda não é localizada, mas simbólica — um colapso de sentido.

Lacan, por sua vez, aprofunda essa leitura ao entender a depressão como um efeito da relação do sujeito com o desejo do Outro. Quando o sujeito não consegue mais sustentar sua posição simbólica — ou seja, quando ele não sabe mais o que é para o Outro, nem o que deseja de fato — surge o vazio. Não é a ausência de desejo que deprime, mas a identificação absoluta com a falta de desejo.

Depressão: quando o mundo perde a cor

Depressão e individualismo: o sofrimento privatizado

Mas esse esvaziamento não é apenas subjetivo. Ele é também social. A sociologia crítica, especialmente a partir de autores como Alain Ehrenberg, aponta como a depressão se tornou o mal-estar típico das sociedades neoliberais. Em A Fadiga de Ser Si Mesmo (2010), Ehrenberg escreve: “A depressão aparece quando o indivíduo se culpa por não estar à altura de sua autonomia.”

O sujeito contemporâneo, incitado a ser empreendedor de si, é também responsabilizado pelo próprio sofrimento. A angústia diante do fracasso ou do vazio não encontra mais sustentação coletiva. A depressão, então, aparece como sintoma de um ideal de autonomia que esvazia os vínculos.

Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2015), aprofunda esse diagnóstico: “O sujeito de desempenho se explora até colapsar. A depressão é a doença de uma sociedade que aboliu o Outro.”

Sem o Outro como limite, espelho ou sustentação, resta apenas o eu frente a si mesmo, esgotado, sem linguagem para se nomear.

O manejo na clínica: escutar o que falta

No tratamento psicanalítico, não se trata de curar a depressão como se fosse uma doença isolada. Trata-se de escutar o sujeito em sua relação com a perda, o desejo e a culpa. O depressivo, muitas vezes, não chora: ele se cala. É nesse silêncio que a escuta analítica se torna potente.

Lacan nos lembra, no Seminário 11, que o analista opera como “suporte do objeto a” — aquilo que falta no Outro. Ao sustentar esse lugar de falta, o analista permite que o sujeito reencontre algo de seu desejo perdido. Não se trata de dar respostas, mas de possibilitar novas perguntas. A saída do estado depressivo não é a restauração de um ideal, mas a reconexão com um desejo possível.

Mais do que perguntar “o que você sente?”, a clínica pergunta: “o que você perdeu aí? O que essa perda diz de você?”

Depressão: quando o mundo perde a cor

Implicação: a dor como enigma, não como sentença.

A psicanálise não romantiza a dor, mas também não a apaga. Ela a escuta. Ela aposta que mesmo no fundo do desamparo, há um sujeito que pode se responsabilizar por sua posição — não como culpa, mas como implicação. É essa implicação que diferencia o sofrimento paralisante da dor elaborada.

Quando a análise caminha, a pergunta muda. De “por que comigo?” para “o que isso diz de mim?”. A depressão, então, não é vencida — ela é atravessada. E ao ser atravessada, o sujeito pode voltar a ter desejo por viver.

“A depressão é o avesso da experiência de reconhecimento. O depressivo se sente fora do mundo, não porque tenha perdido algo, mas porque perdeu a capacidade de desejar.”
Kehl, 2009, p. 197


Referências bibliográficas
  • Freud, S. (1917). Luto e melancolia. In: Obras completas, vol. 12. Companhia das Letras.
  • Lacan, J. (1959-60). O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar, 1998.
  • Ehrenberg, A. (2010). A fadiga de ser si mesmo: depressão e sociedade. Editora Vozes.
  • Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço. Editora Vozes.
  • KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2009.

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