Ansiedade: o tempo fora de si

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  • Última modificação do post:31/07/2025
Por Adriano Tormena, sociólogo e psicanalista

“O futuro não chega. Mas eu já estou nele.” Essa é a sensação do ansioso: um corpo que não cabe mais no presente, uma mente que se adianta à experiência, um tempo que foi capturado pela antecipação do pior. A ansiedade, diferentemente do medo, não tem objeto claro. O medo é localizado — o ansioso, porém, teme algo que ainda nem aconteceu, mas que já o habita. Trata-se, portanto, de um sofrimento que desloca o sujeito de si mesmo.

Ansiedade: o tempo fora de si

A ansiedade como excesso de futuro

Na perspectiva psicanalítica, a ansiedade pode ser pensada como um afeto sem inscrição simbólica suficiente. Para Freud, o afeto se torna sintoma quando não encontra uma representação que o ampare. No texto, Inibição, sintoma e angústia (1926), ele afirma:

“A angústia é o sinal de que o Eu se deparou com um perigo, e este perigo está ligado à perda do amor, à castração ou à aniquilação.”
(FREUD, 1926, p. 122)

Lacan, por sua vez, enfatiza que a angústia (forma mais radical da ansiedade) surge não onde falta algo, mas onde algo está “demasiado presente. No Seminário 10, ele diz:

“A angústia não é sem objeto. O que angustia é a irrupção de um objeto que não deveria estar ali, que desmonta a ordem simbólica.”
(LACAN, 1962-63, p. 80)

O ansioso, portanto, não vive a falta, mas o excesso. Excesso de expectativas, de imagens, de demandas. É um sujeito atravessado por significantes que o precedem e o pressionam, mas que ele não consegue historicizar — apenas sentir.

A ansiedade e a lógica da performance

No plano social, a ansiedade é sintoma de uma época. Uma época em que o tempo é colonizado pela produtividade, em que a espera é patologizada e o descanso é culpa. Byung-Chul Han escreve:

“A sociedade atual é marcada por uma hiperatividade destrutiva. O sujeito do desempenho se cobra, se vigia, se autocobra. A ansiedade é o efeito colateral de uma liberdade perversa.”
(HAN, 2015, p. 26)

A ansiedade, nesse contexto, não é um desvio, mas uma consequência lógica. Ela surge quando o sujeito internaliza a lógica do capital, tornando-se empresa de si mesmo. Cada desejo vira meta. Cada falha, um fracasso pessoal. Não há tempo para errar — só para render.

Em O tempo e o cão, Maria Rita Kehl já advertia:

“A ansiedade é o avesso da espera. O ansioso não consegue se colocar em falta, quer que o tempo corra mais rápido que o desejo.”
(KEHL, 2009, p. 142)

O manejo na clínica: construir um tempo habitável

Na clínica, o trabalho com o sujeito ansioso não é acalmá-lo — é reinscrevê-lo no tempo. Isso exige escuta e sustentação da angústia, não sua eliminação imediata. É preciso, como diz Lacan, “sustentar o desejo como falta” — e não como performance. O sujeito ansioso sofre daquilo que não consegue simbolizar. No lugar da falta, há uma urgência insuportável. O manejo, então, consiste em devolver ao sujeito o direito de não saber de imediato, de não corresponder ao ideal do Outro, de tornar suportável a espera.

Implicação: desacelerar não é parar, é habitar o vazio

Ansiedade não é apenas um sintoma individual. É um modo de subjetivação da cultura do excesso. A clínica, nesse sentido, não é uma técnica de relaxamento, mas uma política do desejo: ela convida o sujeito a desfazer-se das promessas fáceis, escutar o próprio silêncio e reaprender a esperar. Esperar não é perder tempo. É abrir espaço para que algo novo, inesperado, possa surgir.


Referências bibliográficas (ABNT)
  • FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia (1926). In: ______. Obras completas, v. 17. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
  • KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
  • LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

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